sexta-feira, 30 de outubro de 2009

PortugalMente: Portugal e o Futuro e o Futuro de Portugal!


Portugal está neste momento preciso colocado perante uma encruzilhada da sua história como país e como nação.

A continuar o caminho de decadência e de definhamento económico, social, cultural e de valores que tem vindo a ser trilhado, o país estará certamente ameaçado a prazo na sua existência soberana.

Está formado desde há praticamente uma década um caldo cultural e governativo, bem como de falta de vontade de mudança nas elites políticas, que compromete seriamente o futuro de Portugal.

É absolutamente vital encontrar novos caminhos de afirmação do país, pensar e repensar o seu papel na Europa e no Mundo, definir novas estratégias económicas, políticas e sociais.

Em suma, é imprescindível a todos os “portugueses de boa vontade” contribuírem activa e empenhadamente para evitar a queda de Portugal num fosso profundo de consequências imprevisíveis e provavelmente insuportáveis. E dar aos portugueses que são ainda jovens a esperança de poderem viver e continuar um país de séculos.

O futuro de uma nação e a permanência de um país não se constroem sem serem profundamente analisadas as causas da sua degenerescência progressiva e continuada, sem se discutirem e resolverem os estrangulamentos que agora existem.

Portugal merece mais, muito mais, e a sua longa história de independência e de dificuldades imensas superadas em vários séculos espera que aqueles que hoje sentem o chamamento nacional possam encontrar as soluções que o momento de sobressalto histórico impõe.

O PORTUGALMENTE vai a partir de agora tentar contribuir modestamente, mas também com o melhor das suas capacidades e motivações, para encontrar os caminhos que garantam o futuro independente e digno de Portugal.

José Pinto Correia
30 de Outubro de 2009

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

A Europa e o Mundo no Novo Milénio


Durante os últimos cinquenta anos do século vinte o Mundo assistiu a uma evolução constante e profunda em muitos domínios. Foi a grande mudança das tecnologias, entre as quais as da comunicação e informação e da medicina, como a ascensão de muitos países a regimes políticos democráticos.
Lembremo-nos que o Muro de Berlim, que dividia o leste do ocidente ruiu em 1989, dando-se desde então início a uma era em que deixaram de existir os dois blocos de poder rivais. Estava findado um período de mais de quarenta anos, desde o fim da segunda guerra mundial em que se defrontaram duas concepções antagónicas de organização política, social e económica do Mundo – o capitalismo democrático e liberal do ocidente liderado pelos Estados Unidos da América contra o comunismo colectivista e de democracia popular do leste comandado pela União Soviética.
Neste período de meio século, o Mundo tinha-se quase unificado por um renovado processo que agora se denomina de globalização competitiva. Todos os países e lugares da Terra passaram a ser interdependentes, porque as tecnologias da comunicação e da informação, dos transportes terrestres e aéreos, as produções das grandes empresas e o seu poder económico global, os computadores e as suas potencialidades sem fim, reduziram as distâncias entre os lugares e as pessoas e ligaram-nas numa verdadeira “cadeia universal”. Morreu a distância, fluidificaram-se as fronteiras nacionais, reconfiguraram-se os espaços regionais, nacionais e locais, apertou-se o tempo, mudaram-se as rotinas e os instrumentos pessoais.
Os países ficaram deste modo menos isolados sobre si-próprios e tenderam a estabelecer relações de mais íntima cooperação geográfica. Nasceram as modernas organizações supra-nacionais que agrupam países em áreas continentais, de modo a facilitarem as respectivas relações económicas, sociais, culturais e políticas.
O exemplo mais avançado desta congregação de interesses e vontades entre países é a agora denominada União Europeia (que anteriormente se denominara de Comunidade Económica Europeia e de Comunidade Europeia). Nesta União existe já hoje um elevado grau de integração económica e uma colaboração e cooperação política também assinalável que tem permitido à Europa viver um dos seus mais longos períodos de paz e crescimento económico. A União Europeia (UE) já hoje inclui 27 estados membros e constitui o maior espaço económico e comercial do Mundo.
Todavia, em 2001 com o atentado às Torres Gémeas de Nova Iorque houve uma alteração radical na forma de ver e governar o Mundo. Este atentado, perpetrado pela organização terrorista global Al-Qaeda, de inspiração islâmica fundamentalista, veio desestabilizar o equilíbrio que se tinha vindo a criar a nível global depois da queda do Muro de Berlim. Há um Mundo antes e outro depois do onze de Setembro.
O terrorismo global é hoje uma ameaça séria ao regular e pacífico viver do denominado “Mundo Ocidental” e também a muitos dos países árabes e muçulmanos onde imperam regimes de cariz não fundamentalista que tem maiores níveis de intimidade com o Ocidente. Provavelmente neste Mundo pós guerra-fria vai permanecer durante muitos anos uma nova guerra que alguém já chamou de “Guerra das Civilizações” onde a inspiração religiosa fundamentalista e bárbara vai perturbar a salutar convivência entre povos, que todos pareciam desejar e o Mundo mais justo e próspero mereceria.
Neste novo enquadramento internacional em que têm vindo a emergir novos centros de poder económico e geopolítico, com destaque para a China e a Índia, a situação relativa da Europa apresenta fragilidades estruturais flagrantes. Desde logo em matéria demográfica o continente europeu está em franco declínio, com fracas taxas de natalidade e franco grau de envelhecimento médio da respectiva população. O que coloca enormes constrangimentos ao desenvolvimento económico, à coesão social e à capacidade de sobrevivência dos actuais modelos de estado social criados em ambientes anteriores de grande crescimento económico e populacional.
Já hoje é possível prefigurar a deslocação da importância económica para o continente asiático, a par da importância tradicional dos EUA, com perda altamente provável da relevância secular da Europa.
As forças principais que definirão a balança de poderes mundiais nas próximas décadas jogam francamente em detrimento da Europa, que terá de encontrar estratégias de reposicionamento e de reconfiguração dos seus potenciais, sob pena de vir a tornar-se, como muitos analistas insuspeitos já hoje afirmam, um continente despiciendo no jogo mundial de poderes geopolítico e geoestratégico do século vinte e um.
José Pinto Correia, Mestre em Gestão do Desporto

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Saramago: Nobel ou Torquemada Ateu?

Eis que surge alguém que põe nome à coisa. O deputado europeu Mário David convida o Nobel José Saramago a escolher agora, tal como anteriormente já ameaçara fazer, a renúncia à cidadania portuguesa (de acordo com uma notícia do Jornal Público de hoje).

O Nobel Estalinista que nos saiu em rifa, e que para triste infelicidade portuguesa não faz jus a muitos dos outros nossos melhores escritores, não pára de derramar sobre os pobres de Cristo desta Terra Santa, e oportunamente consagrada, a sua indisfarçável truculência e o mais veemente fel.

Da intolerância esteve também o imenso Gulag cheio, mas desse, que marcou quase um século e recente, o insigne dilecto não trata. E Torquemadas ateus não fazem falta a um povo que quer construir o seu futuro na compreensão das diferenças e na convivência entre os que as detêm.

A democracia, que não é a ditadura de ninguém e muito menos dos que são apóstolos do totalitarismo que nega os direitos da pessoa humana, não é o regime do cavaleiro apocalíptico da "Ordem Saramago".

Que a excelência sapientíssima fique bem na sua soberba presunção, lá para os confins da Espanha onde preferiu viver, depois de ter empochado os dinheiros nóbeis. Por certo, lá em Lanzarote poderá continuar a viver na companhia que escolheu, deixando em paz aqueles que apenas lhe serviram a bandeja em que vem amealhando e a Casa dos Bicos onde a sua apregoada grandiosa eloquência e o já reconhecido fanatismo para com as crenças dos seus conterrâneos irão ficar.

Enquanto ali ao lado a "Casa de Pessoa" luta desesperadamente há anos por ver a luz do dia de um projecto que faça justiça a um Grande Português, que reconhecia as coisas complexas da fé, tinha passado para além delas, mas nunca aviltou com pretensão e desprimor o seu imenso e profundo significado.

Uma pátria é a sua língua, como ele dizia, mas também as suas gentes, de hoje e de sempre...!

José Pinto Correia, Mestre em Gestão do Desporto

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro de 2016

O Rio de Janeiro no Brasil acabou de sair vencedor da corrida olímpica das cidades mundiais candidatas à realização da edição dos Jogos Olímpicos de 2016.

Claro que o Brasil, como país hospedeiro dessa edição dos Jogos, hoje já é uma potência mundial emergente que tem inclusive assento no clube do denominado G20. Claro é também que o país poderá pagar a astronómica conta dos Jogos com a ascensão flagrante do seu poderio económico. Mas é uma enormíssima ilusão, senão mesmo estultícia, pensar que os biliões de dólares, as muitas e muitas centenas de milhões de contos na nossa antiga moeda, que vai ser a conta final a pagar pelos Jogos de 2016, vão resolver ou sequer passar perto de tentar resolver os gravíssimos problemas de miséria e insegurança que tem o Brasil ou melhor o Rio de Janeiro.

A festa, a enorme festa dos Jogos, não servirá, como nunca em outro lado serviu, para resolver problemas económicos e sociais e a pobreza manifesta ou a insegurança flagrantemente vigente. Esse não é nem nunca foi o desiderato dos Jogos, e só lateralmente aos objectivos próprios do evento desportivo é que poderão existir intervenções que possam ter alguma incidência na minimização das graves carências e desigualdade social e de rendimentos ou na melhoria dos níveis de segurança vigentes no Rio de Janeiro ou no Brasil. Tudo o que normalmente é dito em contrário pelos óbvios interessados e promotores dos Jogos, desde os políticos aos dirigentes desportivos ou empresariais envolvidos, é mera ilusão e retórica que se destina a ajudar a vender o evento ao povo do país hospedeiro dos Jogos.

Neste momento em Pequim, por exemplo, o estádio monumental do “Ninho do Pássaro” já está a ser transformado em centro comercial a retalho. E a Grécia, que realizou a edição dos Jogos de 2004, ficou como se sabe endividada e com as infra-estruturas desportivas votadas às moscas e ao mais completo e miserável abandono. Depois de os Gregos terem pago pelos Jogos mais de dez mil milhões de euros num evento inicialmente orçamentado em menos de metade desses mesmo valor. No Reino Unido que terá a edição de 2012 já se prevêem gastar mais de nove biliões de libras quando estiveram contabilizados menos de um terço desse valor nos orçamentos inicialmente apresentados ao Reino de Sua Majestade (prestados no Parlamento em sucessivos Relatórios públicos).

Claro que o Presidente Lula e o responsável do Comité Olímpico Brasileiro, que é ainda pior do que o nosso Comandante eterno em Portugal, cantaram vitória e encenaram rigorosamente a imensidão do desafio. Mas quem terá de liquidar as contas, real por real, ano a ano, e até ao fim, são os pagadores de impostos brasileiros, e o dinheiro, melhor a montanha de reais, que vai para a festa dos Jogos não vai para escolas, casas de habitação social, hospitais, jardins de infância, pequenas estruturas desportivas locais, apoios sociais para idosos, doentes, desempregados, etc., quer no Brasil quer no próprio Rio de Janeiro.

Claro que o Brasil ganhou os Jogos de 2016, vai pagá-los com impostos de muitos anos, terá o Rio de Janeiro de cara lavada, terá muitos milhões de brasileiros nas ruas a aplaudir, dará muitos empregos na construção, terá novos estádios, pavilhões, piscinas olímpicas, etc. Mas ficarão muitas outras coisas muito urgentes e criadoras de mais equilíbrios e justiça sociais por fazer ao mesmo tempo que tudo aquilo será feito a pensar quase estritamente nos Jogos Olímpicos.

Isso é certo, e infelizmente para muitos dos pobres e excluídos e carenciados do Rio e do Brasil, porque os recursos económicos e financeiros, mesmo de uma potência económica mundial emergente como já é inquestionavelmente o Brasil, não são inesgotáveis. Os muitos e muitos milhões de reais que vão ser gastos num lado não poderão ao mesmo tempo ser gastos noutros lados e coisas. Este é, aliás, um dos princípios económicos básicos que terá evidentes consequências políticas e sociais para o Rio de Janeiro e o Brasil de 2016 e anos futuros.

José Pinto Correia, Mestre em Gestão do Desporto


segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Desporto Escolar e Grandes Eventos Desportivos para o PS


O Primeiro-Ministro de Portugal no final de toda uma legislatura e já praticamente no âmbito da campanha eleitoral para as eleições legislativas falou finalmente sobre o desporto, a sua importância na sociedade portuguesa e também sobre o sucesso da sua política neste mandato que agora termina. E acrescentou depois as principais opções políticas para aquela área numa eventual nova legislatura sob a égide do seu Partido Socialista.

No Fórum do Desporto das Novas Fronteiras onde falou há apenas alguns dias, José Sócrates afirmou estar orgulhoso do trabalho desenvolvido pelo seu Governo na área desportiva e reforçou a importância do apoio ao desporto escolar. E disse também que “A organização de grandes eventos desportivos internacionais é absolutamente fundamental para um país como Portugal, pois isso promove a prática desportiva, induz o investimento em infra-estruturas desportivas e porque isso é o melhor contributo para a afirmação de Portugal do ponto de vista internacional" (sic).

Quanto à importância do desporto escolar no âmbito das políticas públicas de desenvolvimento desportivo ela é inquestionável. A prática desportiva regular ao longo da vida, a detecção de talentos para a competição de alto rendimento, a alimentação do desporto federado e dos clubes desportivos com atletas praticantes regulares, a valia social de integração de populações desfavorecidas, a disseminação de valores de competição e de superação das limitações e capacidades individuais, a protecção e promoção de hábitos de vida saudáveis, o combate a várias doenças predominantes nas sociedades de abundância ocidentais, tudo isto, bem como o estímulo ao melhoramento do capital social e ao desenvolvimento harmonioso das comunidades locais, fazem do desporto escolar um instrumento e subsistema essencial ao desenvolvimento sustentado do desporto português.

Só que agora aqui impõe-se perguntar se esse foi o caminho seguido na anterior legislatura pelo Governo Socialista de José Sócrates. Se, nomeadamente, foram dados ao desporto escolar os recursos financeiros e humanos, foram feitas as relações interdepartamentais necessárias entre os departamentos governamentais da educação, do desporto, da saúde e as autarquias locais, foram estabelecidos os adequados programas nas escolas, foram feitos trabalhos de ligação com as autarquias e desenvolvidos quadros sistemáticos de políticas de fomento do desporto escolar local, ou se foram estabelecidos os quadros organizativos que dariam ao desporto escolar o impulso que uma política integrada de desenvolvimento do desporto efectivamente exigiria?

Que se conheça publicamente do trabalho desenvolvido pela Secretaria de Estado do Desporto ao longo da presente legislatura nunca houve efectiva ligação interdepartamental com o Ministério da Educação nem com as autarquias, nomeadamente nestas através da respectiva Associação Nacional dos Municípios Portugueses (ANMP).

Nem no Instituto do Desporto de Portugal, que depende organicamente da Secretaria de Estado do Desporto, mesmo depois de ter sido revista a sua estrutura orgânica e adequados os respectivos estatutos, foi possível identificar qualquer esforço coordenado e sistemático na direcção do fomento do desporto escolar. O que aliás não é inusitado porque a Secretaria de Estado do Desporto nunca apresentou preocupações significativamente audíveis relativamente a esse mesmo desporto escolar, o qual continuou completamente entregue apenas ao Ministério da Educação.

Ora, ao que se viu durante toda a legislatura, o desporto escolar restringiu-se organizativa e financeiramente aos esforços dos Ministério da Educação, onde deteve uma pequena representatividade e nível de organização, e às autarquias locais, estas no domínio das suas políticas locais respectivas e na medida em que apoiavam o trabalho desenvolvido nas escolas da sua jurisdição territorial.

E estas duas entidades, Ministério da Educação e Autarquias Locais, eram na prática real as únicas responsáveis pelo desporto escolar, de forma efectiva, sem que tenha sido perceptível a existência de qualquer esforço organizativo ou sistemático da Secretaria de Estado do Desporto para com esse desporto escolar.

Por isso, então o que vai mudar para a nova legislatura que aí se avizinha com o Programa do Partido Socialista para que o desporto escolar, na sua importância e significado organizacional, estrutural e social, passe das palavras de circunstância para o terreno dos programas, das estratégias e das acções concretas de desenvolvimento desportivo?

Aqui há que ir ao Programa Eleitoral do Partido Socialista e ver que nele sobre esta matéria se diz apenas o seguinte: “(…) Consolidar o aumento da prática desportiva na escola, em articulação com o sistema educativo, contribuindo para estender o desporto a toda a escolaridade obrigatória, no contexto estratégico de uma «Escola a tempo inteiro» (…)” (citação).

Fica-se por conseguinte apenas no domínio das intenções genéricas sem se apontarem os modelos de cooperação interdepartamental, os programas e as estratégias de intervenção e fomento ou mesmo as estruturas e os processos de melhoria organizacional do desporto escolar.

Quanto à importância atribuída pelo Primeiro-Ministro aos grandes eventos desportivos, as afirmações proferidas e acima referidas, mereciam que em Portugal se realizassem estudos sérios que pudessem comprovar sobre a efectiva relevância desses eventos nos aspectos a que José Sócrates faz referência. Quer, como ele diz, como estimuladores da prática desportiva, quer como geradores de novas infra-estruturas desportivas ou mesmo como contribuintes para a afirmação internacional do País.

E isto devia ocorrer à semelhança do que é feito em muitos outros países, com destaque para o Reino Unido como aqui neste sítio já detalhadamente se expôs. Desde logo porque em Portugal este tipo de estudos não são habitualmente realizados, por isso não se conseguem provar consequentemente os efectivos benefícios para o fomento da prática desportiva dos maiores eventos desportivos recentemente realizados no País.

Essas nem têm sido, aliás, preocupações conhecidas das autoridades públicas desportivas, nem mesmo das associações federativas que os promovem. Porque nos estudos internacionais, muitos deles de carácter académico e científico, em casos conhecidos mesmo inseridos em publicações académicas de economia e gestão do desporto, ou em livros internacionais de economia dos eventos desportivos ou do desporto, que se vão realizando e editando em muitos países sobre os efectivos impactos dos grandes eventos, não se confirmam tão categoricamente, como agora o nosso Primeiro-Ministro afirma, esses efeitos da realização de grandes eventos desportivos para os países ou mesmo estados de países federados onde eles se realizam.

E isto tanto ocorre nos maiores eventos mundiais, como o são os Jogos Olímpicos e os Campeonatos Mundiais de Futebol, como em outros tipos de eventos desportivos de menor envergadura de outras modalidades desportivas.

Acontece em bom rigor que nada do que respeita à análise dos efeitos ou impactos desportivos ou de outras naturezas dos grandes eventos desportivos para os países que os realizam é tão simples e significativamente afirmativo como referiu o nosso Primeiro-Ministro naquele Fórum do Desporto.

Por exemplo no Reino Unido, que temos estudado e referenciado por diversas vezes em outras oportunidades e neste mesmo sítio, começaram por se estudar os impactos da realização dos Jogos Olímpicos de Londres muito antes da sua atribuição pelo Comité Olímpico Internacional e com recurso a uma metodologia inovadora neste tipo de estudos que foi a análise de custos-benefícios. E para a candidatura à realização do Campeonato Mundial de Futebol em 2018 foi feito em Inglaterra, mais de três anos antes da candidatura efectiva entregue em 2009 na FIFA, um estudo de viabilidade da candidatura por impulso do então ainda Ministro das Finanças Gordon Brown (hoje Primeiro-Ministro como sabemos).

Ora, é muito importante destacar também que a candidatura efectiva do Reino Unido, amplamente discutida e preparada ao longo de vários anos pelas respectivas organizações políticas e desportivas envolvidas, só veio a ser apresentada à FIFA já depois da candidatura conjunta de Portugal e Espanha ter sido avançada naquele organismo internacional. E em Portugal e Espanha, ao que é público e reconhecido, não existiu praticamente discussão sobre a candidatura que em Portugal nem oficialmente recebeu o apoio governamental explícito e formal.

O que acontece lamentavelmente é que esta candidatura conjunta dos dois países não tem ainda hoje em Portugal qualquer estudo conhecido que a suporte e sustente, ainda que esse estudo já tenha sido prometido há muitos meses pelo respectivo Presidente da Federação Portuguesa de Futebol interessada com a indicação de que seria rapidamente disponibilizado à opinião pública nacional. E ainda agora não se conhece qualquer compromisso efectivo do Governo português à sustentação da realização do evento, mesmo depois de a intenção de candidatura ter sido apresentada na FIFA pelas duas Federações envolvidas.

Aliás, é de destacar o facto estranho de, já depois do actual Secretário de Estado do Desporto ter demonstrado há vários meses interesse pessoal naquela candidatura, ainda que não vinculando o Governo de Portugal como é óbvio, o Programa Eleitoral do Partido Socialista ser completamente omisso quanto a esse apoio formal à realização do Campeonato Mundial de Futebol de 2018 em Portugal.

Aliás, deve também dizer-se que ainda hoje não foi realizado nenhum estudo que tente avaliar os efectivos impactos desportivos da realização do EURO 2004 em Portugal; e incluem-se nestes, nomeadamente para ir de encontro às afirmações tão categóricas do Primeiro-Ministro de hoje, aqueles que medissem os aumentos efectivos da prática desportiva no futebol e outras modalidades relevantes nos locais onde se realizaram as infra-estruturas do evento, por exemplo. Nem nunca se mediram os efeitos/impactos económicos efectivos dos diferentes estádios de futebol que serviram o EURO 2004, sabendo-se que em vários deles as assistências regulares de espectadores têm sido francamente reduzidas; e no caso do estádio do Algarve ele nem sequer tem eventos desportivos de futebol regulares mas ao invés faz incorrer duas Câmaras Municipais em encargos anuais significativos para acautelar a sua manutenção e conservação.

Como já em outra ocasião escrevemos, no Reino Unido a entidade encarregada de avaliar as candidaturas internas para a realização de eventos desportivos, bem como a que tem procedido à medição efectiva dos impactos económicos de muitos desses eventos que no país se têm vindo a realizar, é o UKSport. Esta agência de natureza não-governamental é também a líder da concretização das políticas de fomento e de desenvolvimento do “desporto de elite do Reino Unido”, conduzindo também, por isso mesmo, o processo de financiamento da participação Olímpica do país.

O UKSport tem como sua estratégia global quanto aos eventos desportivos a de apoiar aqueles que tenham relevância estratégica e que produzam, ao mesmo tempo, um conjunto de benefícios duradouros de carácter desportivo, económico e “sócio-cultural”.

Em Portugal, como se viu pela prática efectiva desta legislatura que agora termina, estivemos sempre muito longe de nos aproximarmos, quer na política de fomento do desporto escolar quer na da percepção dos reais efeitos da realização de eventos desportivos no País, daquilo que seria próprio de uma política desportiva evoluída e de boa e adequada sustentação estratégica. Toda a legislatura decorreu aliás sem que fossem promovidos estudos regulares sobre temas de economia e gestão desportiva, o que atesta da insuficiência de fundamentação de muitas das opções políticas seguidas durante o mandato que agora vai terminar. E o que é mais preocupante é que em nada parece que se vá mudar muito com o discurso supra-referido do actual Primeiro-Ministro e líder do Partido Socialista nem com as afirmações e propostas contidas no Programa Eleitoral respectivo (ver o texto integral do Programa que foi exposto num post anterior).

José Pinto Correia, Mestre em Gestão do Desporto

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Novos Espaços de Debate sobre Desporto

Que espaços de discussão sobre as políticas desportivas existem em Portugal?

Nem no Estado, que tem predomínio legislativo, de financiamento e de regulação de todo o desporto nacional, nem na denominada sociedade civil onde se inscrevem as federações desportivas ou a academia, se oferecem esses espaços organizados de debate e formação, de pensamento estruturado, sobre o desporto na sociedade portuguesa.

É claro que o Estado/Governo tem especiais responsabilidades por não ter nem criado as condições nem favorecido o aparecimento desses “fora” de debate.

Também não são muitas as pessoas que em Portugal estarão habilitadas ou disponíveis para animar essas reflexões. Porque o debate e a formulação de propostas de políticas públicas desportivas têm de ter a perspectiva de que terão consequências e efeitos úteis.

Por isso, e como o Governo privilegiou na presente legislatura a actividade legislativa, o debate sobre a estratégia, a organização e o papel do desporto em Portugal é frágil ou praticamente inexistente. Apenas algumas pessoas vão dando opiniões em pequenos e circunscritos espaços como acontece no “BLOG colectividade desportiva” ou no sítio do “Fórum Olímpico de Portugal”.

Ainda há poucos dias na SIC Notícias, no Programa Tempo Extra, o não acomodado e avisado jornalista Rui Santos lamentava vivamente, e com argumentação bastante sólida, a prática inexistência de estudo e debate sobre o nosso desporto profissional e do futebol em particular relevo. Por isso, também dizia que o trabalho de preparação das futuras selecções nacionais de futebol tinha ficado praticamente sem ser feito nos últimos anos e que as mesmas pessoas estão nos mesmos lugares dirigentes há imensos anos. E agora estamos, disse, praticamente sem soluções evidentes para constituir a nossa selecção principal. Isto é, segundo a sua avisada e consequente opinião, nem a FPF nem o Estado/Governo prestaram o necessário serviço ao desporto profissional do futebol de organizarem os espaços de diálogo, debate e reflexão sobre o desenvolvimento das nossas selecções nacionais.

O que aliás também acontece, na nossa opinião, com a Liga Profissional quanto ao Campeonato. E devo também acrescentar que em nenhuma destas organizações de topo da governação do futebol nacional se discutem os temas da economia e da sustentabilidade financeira e competitiva dos Campeonatos Nacionais, com destaque para a 1ª Liga Profissional.

Para já não relembrar também aqui o fraquíssimo papel do recentemente criado Conselho Nacional do Desporto que parece actuar como simples caixa de ressonância das iniciativas legislativas do Governo e nem publica as actas dos seus trabalhos, discussões e decisões. Não se conhecem o teor das discussões havidas naquele Conselho, nem as suas propostas organizativas e de estratégia para o desporto nacional. Nem é usual que o Conselho peça intervenções de pessoas exteriores que sejam referenciadas como conhecedores de vários dos temas que serão tratados ou decididos.

Não seria já a altura de o Estado/Governo pensar em criar, em conjunto com as Universidades e as entidades associativas do desporto, um Fórum de debate permanente em torno dos problemas de organização e desenvolvimento do desporto (ou das denominadas políticas públicas desportivas)? E isto ser feito à semelhança dos exemplos que existem em outros países europeus, servindo-nos de experiências bem sucedidas como a do Reino Unido?

Para que pudesse ser reunido o conhecimento necessário à concepção e fundamentação das políticas públicas desportivas e se criasse um “centro de conhecimento” que em permanência reunisse as capacidades humanas existentes nos diversos agentes do desporto, desde o Estado, passando pela academia, as organizações desportivas e outras entidades relevantes existentes na denominada sociedade civil.

José Pinto Correia, Mestre em Gestão do Desporto

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

A Prisão da Liberdade: Não e Não!


Algures por Abril deste ano de 2009 escrevíamos um texto que foi publicado no Jornal "O Primeiro de Janeiro" que agora se demonstra mais que fundamentado e actual. Esse texto vai abaixo republicado.

Mas merece um pequeno intróito esclarecedor da sua oportunidade, melhor dito mesmo, da sua exigência de cidadania.

Tal como em Atenas se devia merecer o estatuto de ateniense também hoje e agora em Portugal se deve merecer o estatuto de português livre e democrata. Porque a Democracia por que duramente muitos lutaram ao longo da ditadura do Estado Novo e a Liberdade com maiúsculas conquistadas em Abril de 1974 não podem transigir com atentados, com desvalores, com a cínica arrogância dos poderosos, sejam eles políticos governantes ou detentores do capital de empresas e grupos económicos.

A Liberdade, aquela por que tem sentido dar o melhor de nós mesmos em favor de todos que vivemos juntos como homens livres, não pode deixar-nos indiferentes, se somos dignos do seu imenso significado para a vida dos homens de todas as crenças, ideias e princípios de vida na Nação. E deve dar combate sem tréguas e transigências de qualquer índole ao cercear da informação, das fontes de informação mediática no espaço público, tenham elas que conteúdo e tendência ou alinhamento editorial tiverem.

A Liberdade que é plena não admite restrições, sanções de opinião divergente da nossa, por mais importantes que nós sejamos na vida da Nação. A Liberdade ou é ou não é, total, plena, responsável, espaço de afirmação da dignidade dos indivíduos, sejam eles quem forem.

E a Liberdade de imprensa, de informação, não pode ser cerceada pelos poderes, sejam eles de que naturezas forem. Porque se tal acontecer todos somos menos, na República, na Nação, no País, na cidade. E a democracia valerá menos, muito menos...!

Em Abril escrevíamos então o que agora aqui rememoramos:

“Um ar funesto na cidade”

Há um ar funesto a descer sobre a cidade. Sente-se já o cheiro de uma certa podridão a invadir as nossas narinas. O Sol parece que vai desaparecer e abandonar-nos na volta dos dias que estão para vir. O bulício das crianças já se desvanece numa quietude que nos inquieta e abre fragas nos sentidos.

Os rostos que passam deixam transparecer um olhar baço e uma tez arreganhada. Sentem-se as preocupações e palpita-se a desconfiança. Vem-se a nós a desesperança e o abandono das conquistas no futuro. Este lê-se prenhe de desvarios e de escuridão. A luz apaga-se a cada instante que nos perpassa. Não se vê um amanhã novo, um horizonte radioso. Dá-se-nos a vontade de fechar as janelas e soltar um grito – lancinante de dor e de raiva.

As ruas estão inundadas de ignomínia, de luxúria, de sofreguidão insana pelo vil metal, de despreocupação com os infortúnios e a miséria. A injustiça é flagrante e adensa-se a corrupção das mentes e dos corpos. Tresandam-se as rosas e os canteiros, neles fenecem as sementes da boa fortuna. No rio há um imenso lodaçal, nem os peixes se podem salvar já, de tanta podridão. Consomem-se as almas, soam as desventuras, invade-se a inteligência com medos, campeia já a lassidão e a indiferença doentia. Socialmente rareiam os princípios, a dignidade e a respeitabilidade. Soam atrozes as ilusões e as mentiras, ribombam as trombetas da propaganda. Na cena, no espaço central da “polis”, vagueiam as mesmas sombras – da arrogância, da altivez, do desvario, do insuportável manobrismo.

“Chega, basta, que a canga está demais” – grita um alguém de lá de baixo, cheio da sua miséria longamente sofrida em silêncio!

De longe, em longe, vem-se-nos uma palpitação e um lampejo de tomar o destino nas próprias mãos. E depois? Será que isso é já? E vamos sós? Haverá quem connosco sinta semelhantemente e tenha igual destino em mente?

Dorme-se mal, sonha-se ou “pesadela-se” pior. Agigantam-se Adamastores em nosso mar e atormenta-se a nau. E os nossos filhos também nela navegam. Serão seus náufragos prováveis?

As vagas alterosas abocanham os porões. Os comandantes desprezam-nos, defendem seus coiros e séquitos. Realisticamente nem conduzem nem governam a nau e a tormenta vai-se adensando. Ouvem-se já intensamente as lamúrias e os gritos de medo e angústia. A revolta vem no ar e soerguem-se as suas vozes.

“Haja quem lute que o destino somos nós que o fazemos” – é a palavra da desordem que se entoa lenta e compassadamente. Os passos apressam-se, as gentes reúnem-se e gritam a palavra. Daqui a pouco será uma turba conduzida numa cruzada assim nascida – do tudo e do nada.

Parece que ao longe o Sol recomeça a querer reentrar no horizonte. Já se poderia pressentir com ele uma nova claridade que irrompesse das nuvens densas que nos toldam.

E os rostos como estarão nessa data? Franzidos de genica e vontade de mudar? E reabrindo-se ao sorriso de quem já vê e começa a construir outro devir?

Talvez aí então as crianças, os filhos destes homens e mulheres, já cantarolem e saltitem, abrindo-se ao mundo que há-de ser deles. E singelamente farão “reandar” a roda das gerações e das suas estórias. Porque o mundo nunca acaba já amanhã – ele renasce perpetuamente e avança “sempre que o homem sonha…como bola colorida entre as mãos de uma criança”!

Os tempos, esses, em todo e a todo o tempo, mudam-se por vontade e engenho dos homens, para que estes tenham direito a serem dignos e felizes no mundo e na cidade que são os seus.

José Pinto Correia, Mestre em Gestão do Desporto